PREÇO DO FEIJÃO DISPARA E ASSUSTA CONSUMIDORES DE BH

Em fevereiro, alta do produto foi de 30% ante janeiro; quebra de safra justifica atuais números

O preço de um dos principais produtos da mesa do brasileiro voltou a ser protagonista dos supermercados de Belo Horizonte. O valor do feijão-carioca fechou janeiro bem acima do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), calculado pela Fundação Ipead, que foi de 1,87%. O produto teve variação de 14,26% no mês.

Em fevereiro, o feijão continuou em alta e pesou sobre o Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M), calculado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). O preço do produto subiu 30,08% em relação a janeiro. Juntamente com o minério de ferro, representou 78% da composição da inflação do mês passado, que ficou em 0,88% pelo IGP-M.

Em alguns sites de redes de supermercados de Belo Horizonte é possível constatar preços acima de R$ 10 por quilo, no caso do carioca. O valor assustou o cozinheiro aposentado Orlando Marques Gonçalves, 69. Apesar de não abrir mão do alimento diariamente no prato, o aposentado pesquisou muito antes de levar o produto. “Feijão com arroz eu não fico sem, mas verduras e frutas, a gente compra menos. Se antes eu pegava um quilo, agora pego meio”, conta Orlando.

Variação

A alta nos preços pode ser justificada pela quebra de safra na produção do feijão, que, em Minas Gerais, teve redução de 35,8 mil toneladas, segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

No Paraná, principal Estado produtor do país e que teve a estimativa de produção diminuída em 12,4% (36,9 mil toneladas), em decorrência da queda de 11,2% do rendimento médio, as lavouras foram prejudicadas pelo forte calor e pela irregularidade na distribuição das chuvas. O mesmo foi verificado em Minas.

O dinheiro para comprar o quilo do carioquinha não foi o suficiente para Tarine Santos, 24. A jovem, que está desempregada, contou que tem feito pesquisa nos estabelecimentos de Belo Horizonte, mas nem os produtos dos próprios supermercados estão com preços acessíveis. “O valor subiu muito. Fiquei surpresa com a alta”, conta.

A chef de cozinha e dona do restaurante Fazendinha Varanda Real, Ana Paula Lamolha, sentiu no bolso o aumento no preço do produto. Ao fazer as compras para a despensa do estabelecimento, que serve almoço diariamente, optou por não repassar o aumento para os clientes. Ela reclama que o preço quase dobrou em um curto espaço de tempo. “Gasto de dois a três quilos por dia, e não há substituto para o produto”, conta.

Atacado

Segundo a FGV, o feijão em grão subiu 62,35% no IGP-M de fevereiro e 15,61% em janeiro, no atacado. André Braz, pesquisador da FGV, explica que o produto é afetado pelo clima desfavorável do verão. Além do feijão-carioca, o mulatinho avançou de 12,80% para 29,09%, e o preto teve alta de 10,29%, de 0,59% em fevereiro.

 

Menor possibilidade de importar

Brasília. O Brasil deve produzir 2,929 milhões de toneladas de feijão a menos neste ano comparando-se com 2018, uma queda de 1,5%, segundo dados do Levantamento Sistemático da Produção Agrícola de janeiro, divulgado em meados de fevereiro pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Os índices inflacionários do país já medem os impactos dessa quebra de safra no preço final do produto, ressaltou Carlos Alfredo Guedes, gerente da coordenação de agropecuária do IBGE. A produção esperada para este ano ainda atende o consumo doméstico tanto de feijão quanto de arroz. O consumo aparente de arroz é de aproximadamente 11 milhões de toneladas, e o IBGE prevê uma safra de 11,1 milhões de toneladas do grão, apesar de a estimativa ser 5% menor que a safra do ano anterior.

Quanto ao feijão, o consumo doméstico gira em torno de 3 milhões de toneladas por ano, enquanto a estimativa de produção nacional está em torno de 2,9 milhões, lembrou Guedes.

Segundo o pesquisador, em caso de problemas na safra, o arroz é mais fácil de importar que o feijão. “(A safra menor de) arroz até pode mexer com o preço, mas é um pouco diferente do feijão, porque a gente pode ser abastecido no Mercosul. Então, mesmo tendo que importar, está próximo. No caso do feijão, também dá para abastecer o mercado, mas já está muito apertada a nossa produção em relação ao que a gente consome. São poucos os países que produzem feijão. E o produto não pode ser estocado por longos períodos, senão perde a qualidade. A produção de feijão é muito sensível em relação a condições climáticas”, alertou.

IPCA-15

Em outro índice. Segundo o IPCA-15, índice inflacionário do IBGE que mediu evolução de preços entre 15 de janeiro e 15 de fevereiro, o preço do feijão subiu 34,56% ante os 30 dias anteriores.