INDÚSTRIA E GOVERNO CONVERSAM SOBRE CRESCIMENTO DO CACAU

Os brasileiros são grandes consumidores de chocolate e para que a indústria nacional dê conta desse apetite é preciso contar com a importação da principal matéria-prima do produto, o cacau. O país não é autossuficiente no cultivo do cacaueiro e conta com um reforço, principalmente de países do continente africano, como Gabão e Costa do Marfim, para atender à demanda nacional.

Os principais compradores de cacau do país vinham se organizando ao longo de 2018 para colocar em prática um programa de incentivo à produção de cacau, mas com a mudança nos governos – tanto no ambiente federal quanto estadual – o processo teve de ser interrompido e agora foi retomada.

Até 2018, por exemplo, quem também fazia parte do grupo de discussão era o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, transformado pelo atual governo em uma secretaria subordinada ao Ministério da Economia.

No final de fevereiro, aconteceu em Brasília um encontro com representantes do Ministério da Agricultura, Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Amendoim e Balas (Abicab) e executivos de algumas empresas para retomar essa pauta e incentivar o aumento da área planta de cacau no Brasil.

META
O objetivo é dobrar a produção nacional de cacau em 10 anos e assim não apenas atender ao consumo crescente no mercado interno como também exportar para aproveitar a expansão global da demanda pelas amêndoas usadas na produção de chocolate.

Ainda de acordo com o grupo de discussão, esse projeto passa por uma agenda ambiental. Isso porque o cacau é uma fruta nativa e depende da associação com o cultivo florestal para se desenvolver. Para atender ao aumento do cultivo, esse grupo de discussão conta com a adesão de agricultores familiares. Segundo cálculos, uma família tem condições de manejar de 5 a 10 hectares de cacaueiros. O retorno estimado é de cerca de R$ 5 mil por hectare plantado por ano.

O aumento da produção local de cacau servirá não apenas para diminuir a dependência dos exportadores e atender o crescimento da demanda nacional, mas também para cumprir mudanças que poderão ser adotadas nas regras atuais de percentual da amêndoa na produção de chocolate, relata Ubiracy Fonsêca, presidente da Abicab.

MAIS CACAU
Hoje, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determina que esse número seja de 25%. No Congresso, se arrasta há alguns anos uma disputa para mudar esse percentual. Alguns projetos sobre o tema acabaram sendo arquivados porque seus autores não foram reeleitos. Mas agora, com a nova legislatura, já se trabalha com a expectativa de o assunto voltar à pauta.

“Entendo que pode ser um percentual maior, mas não dá para sair de 25% para 35% porque isso alteraria o sabor do chocolate. Os produtos tradicionais do país são muito bem-aceitos pelo público”, analisa o representante da indústria.

Por outro lado, argumenta o presidente da Abicab, o Brasil tem o problema de não ser autossuficiente, já que produz 170 mil toneladas de cacau e o consumo é de 250 mil toneladas por ano. “Aumentar o percentual de cacau no chocolate sem ter uma produção nacional satisfatória vai servir para atender aos países produtores, que vão ficar bem satisfeitos”, alfineta Fonsêca.

Para resolver essa equação, o presidente da Abicab acredita que é preciso estimular o aumento da produção de cacau. O programa que está sendo articulado entre o setor e o governo prevê programas de incentivo implantados além dos dois estados que se dedicam a essa cultura atualmente: Bahia e Pará, responsáveis por cerca de 90% a 95% do total cultivado no Brasil.

NOVAS ÁREAS
O projeto é levar a cultura do cacau para os estados de Mato Grosso, Espírito Santo e Rondônia. Essa iniciativa, chamada de Cocoa Action e encabeçada pela entidade internacional World Cocoa Foundation, surgiu na Europa e nos Estados Unidos e vem servindo para financiar os países africanos e estimular o crescimento da atividade de forma mais sustentável.

No Brasil, a ideia é que seja financiado o desenvolvimento de novas mudas de cacaueiros para atender à expectativa de aumento da área plantada. Ainda não há uma definição sobre quem entraria com recursos para bancar o projeto – a União, os estados envolvidos ou as empresas compradoras de cacau. A tendência, no entanto, é que a indústria financie o programa.

“Não queremos importar cacau, queremos que o Brasil seja autossuficiente e aumente o percentual de cacau no chocolate de forma gradativa”, diz Fonsêca. Segundo ele, o movimento mais recente foi no ano passado, quando ficou acertado que esse número sairia de 25% para 27%, mas o projeto não chegou a ir a plenário para votação na Câmara.

TRABALHO DE CAMPO
Diretor de Cacau e Chocolate da Cargill, Laerte Moraes conta que a Cargill é uma das integrantes da World Cocoa Foundation e parceira fundadora do Cocoa Action. “Essa é uma iniciativa pioneira multissetorial pró-competitiva que visa catalisar esforços para questões prioritárias na sustentabilidade do cacau. A iniciativa está alinhada com o Cargill Cocoa Promise  e acreditamos que o trabalho colaborativo nos permitirá encontrar soluções por meio de políticas e ações públicas eficazes na produção brasileira de cacau”, relata.

Além desse programa, a Cargill tem estabelecido parcerias com várias organizações e iniciativas junto aos agricultores no Brasil, como a TNC, Solidaridad e Certificação UTZ.

O executivo explica que incentivar o aumento da produção nacional de cacau é uma forma de incentivar uma cultura com potencial enorme de crescer em áreas já degradadas e convertíveis em lavouras.

“A expansão da produção no país aumentará a geração de renda, a inclusão de pequenos produtores e incentivará o reflorestamento. E, embora seja o sétimo país no ranking de maiores produtores de cacau, o Brasil é o quinto maior consumidor de chocolate do mundo. Existe um grande potencial de crescimento quando se compara o consumo per capita do Brasil, de 2,5 quilos per capita/ano, com o dos principais mercados, que consome de 5kg a 12kg”, detalha.

BRASIL
Além disso, segundo o diretor da Cargill, o Brasil é o único produtor de cacau com uma planta de processamento das amêndoas e um grande fabricante e consumidor de chocolate. “O país tem representação de todos os elos da cadeia”. O executivo acredita que o país tem potencial para ser um produtor significativo de cacau “produzido de maneira sustentável e responsável”.

Isso pode acontecer, segundo Moraes, porque “o país possui terra, tecnologia, genética e investimentos que precisam ser utilizados de forma prática e inteligente para aumentar a produtividade e resiliência dos agricultores, reduzir pragas e ameaças de doenças, reflorestar e preservar a biodiversidade por meio de sistemas agroflorestais”.

Empresa investe na pesquisa e agora chega ao campo

A Mondelez já vem investindo no aumento da produção de cacau no Brasil, segundo Jens Hammer, líder do programa global de sustentabilidade do cacau da Mondelez International, o Cocoa Life, no país. Até o ano passado, as atividades da multinacional eram mais focadas no apoio a pesquisas. Um desses projetos, em fase de conclusão, foi desenvolvido ao longo de cinco anos em parceria com a Universidade Estadual de Santa Cruz (BA), para encontrar métodos de renovação da cultura cacaueira. Quando a produtividade cai, as lavouras costumam ser abandonadas, especialmente na Bahia.

Agora, a companhia tem buscado uma aproximação com os produtores de cacau para levar esse tipo de tecnologia para o campo. Atualmente, já são 30 unidades demonstrativas onde estão sendo testados os métodos de renovação da cultura. “Vai ser uma oportunidade para produtores no entorno verem o que funciona, além de demonstrarmos outras práticas agrícolas. Isso deve se intensificar a partir do segundo semestre”, diz Hammer. Foram investidos R$ 2,4 milhões apenas no projeto de pesquisa.

O Pará será o principal destino dos projetos de aumento da qualidade e da produção de cacau da companhia. A Mondelez vem desenvolvendo no sul do estado um conceito que pretende incentivar o plantio de cacau e outras árvores, como a andiroba. Esse tipo de manejo permitirá que os agricultores formem pequenas florestas, o que poderá representar uma alternativa financeira e ambiental também para os pecuaristas, que hoje convivem com áreas de pastagem improdutivas, e assim atendam a requisitos do Código Florestal.

“Eles voltarão a ter acesso a crédito com uma cultura que vai trazer renda e ainda vão contar com outras culturas que vão ajudar a complementar renda, tirando da dependência da pecuária”, explica o executivo. Sua expectativa para os próximos anos é que sejam recuperados por volta de 1.000 hectares hoje devastados.
 

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